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Sertões

ENTREVISTA

“Sou cearense sul-mato-grossense”

A cantora Maria Alice mergulha em suas memórias afetivas no novo disco “Sertões”

“Sertões” é o segundo disco solo de Maria Alice. A nova produção da cantora, que desenvolve seu trabalho em Campo Grande (MS), traz um repertório cheio de sucessos da Música Popular Brasileira. Destaque para clássicos do cancioneiro nordestino, do interior de Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul e da fronteira sul-mato-grossense, com destaque para músicas paraguaias.

 

Nascida no Rio de Janeiro, mas criada entre o Ceará e Mato Grosso do Sul, Maria Alice volta a lançar um trabalho musical após um hiato de duas décadas. Entre as principais intérpretes da música sul-mato-grossense, a cantora abre espaço para remexer em suas memórias afetivas, formando um repertório que conhece desde pequena e que traz compositores fundamentais para a construção do imaginário cultural brasileiro.

 

Confira abaixo a entrevista com Maria Alice, em que a cantora reflete sobre o novo disco “Sertões”, conta como foi o processo para se chegar ao álbum e a escolha dos convidados.

 

Vinte anos depois de lançar seu primeiro disco (No Mundo a Passeio/1997), você volta com “Sertões”. O que levou você a querer produzir um novo álbum neste momento de sua vida?

Na verdade, o projeto começou com a ideia de um show apenas. Montar um espetáculo que trouxesse esse repertório. Quando as músicas começaram a ser arranjadas pelo Pedro Ortale, percebemos que havia um trabalho com potencial para um registro. À medida que o Pedro trabalhava nos arranjos percebemos que merecia um disco também. A ideia foi se consolidando e virando realidade. Quando percebi que faziam exatos 20 anos do lançamento do primeiro disco, achei que já estava mais que na hora de retomar a produção na música.

 

 

“Sertões” traz um repertório que une cancioneiro nordestino, sertanejo raiz e música fronteiriça do Brasil com Paraguai. Uma espécie de grandes clássicos da música regional brasileira que, normalmente, não se misturariam em um mesmo trabalho, já que vêm de regiões diferentes. Qual o ponto de contato que você percebe entre estas canções feitas em locais antagônicos do Brasil?

O ponto de contato desencadeador do projeto são as minhas memórias. Acredito que como eu, aos 50 anos, muitas pessoas também têm essas referências na vida. Meu pai é cearense e minha mãe sul-mato-grossense, os dois do interior. Passei minha infância, adolescência e começo da vida adulta transitando por esses Estados em viagens de carro. E andando muito pelas cidades a que eles pertencem. Conheci muito bem as particularidades do interior do Mato Grosso (assim que era no início desse período) e do Ceará. Tomei banho de cuia, nadei em lagoa, escorreguei no barro. A luz da fazenda se apagava às 9h da noite no máximo, pois era um motor que a produzia, o que também acontecia na praia do Pecém, onde passávamos os fins de semana na minha infância, só que a cidade toda se apagava. São experiências que vinham acompanhadas de trilhas musicais desses locais. Como sempre tive uma forte relação com a música, essas memórias vinham sempre associadas a ela. Quando criança cantava no carro porque não tinha rádio. Era um trajeto musicado pelo meu atrevimento de ficar cantando sem parar. Dorival Caymmi, Maysa, Chico Buarque, carimbós, algumas músicas bregas, Amado Batista, Bartô Galeno, Odair José... Sempre música brasileira, que era o que se ouvia em casa, do gosto dos meus pais em LPs e das funcionárias da casa no rádio. As músicas paraguaias eram uma constante na casa dos meus avós em MS, na fazenda, nos bailes e festas. Dancei muita polca nessa vida.  

 

 

Até que ponto a sua experiência como “cantora da noite”, em que teve contato com o repertório clássico da música brasileira, e a sua trajetória de vida pessoal, sendo carioca criada entre o Ceará e o Mato Grosso do Sul, filha de pai nordestino e mãe sul-mato-grossense, exposta a culturas distintas e com raízes diferentes, influenciaram neste novo disco?

São fortes influências nesse trabalho. Minha casa era um local onde a música sempre esteve muito presente. Meus pais, admiradores da música brasileira, me proporcionaram conhecer os grandes compositores e intérpretes desde muito cedo. Lembro que minha mãe tinha uma coleção de discos que contava a história da MPB. Eram umas quatro caixas com uns 15 discos mais ou menos cada uma. Cartola, Candeia, Adoniran Barbosa, Caetano, Gil, Luiz Gonzaga, Elis, Maysa, Dolores Duran, Tião Carreiro... Ouvia de tudo na minha casa. Ainda criança entoava nas minhas cantorias no carro “Meu mundo caiu e me fez ficar assim”, “O mar quando quebra na praia é bonito é bonito”, “O morro não tem vez e o que ele fez já foi demais”, “Dona Maria que dança é essa que a gente dança só, Dona Maria que dança é essa é carimbó é carimbó”... Enfim, tenho 50 anos, mas não me lembro de crianças do meu tempo se relacionarem com esse tipo de música. Agradeço aos meus pais pela oportunidade.

 

“Tristeza do Jeca”, do Angelino de Oliveira, vai fazer 100 anos em 2018. Estas canções que você escolheu para o disco parecem bem atuais, embora tenham sido feitas há décadas. Como você analisa a mensagem que estas músicas, quando reunidas neste seu novo trabalho, deixam para o ouvinte?

Além de gostar dessas canções, a ideia também é valorizar a música do sertão do Brasil e seus autores. Eu mesma não sabia de quem era boa parte das músicas. É preciso que se dê o devido valor àqueles que nos presenteiam com músicas tão bonitas e que estão tão presentes na vida da gente. 

 

 Os arranjos e o lado instrumental do disco são parte essencial do trabalho. A direção musical é do Pedro Ortale, que já havia feito o primeiro disco em 1997, com uma linguagem bem diferente de “Sertões”. Primeiro gostaria de saber sobre esta parceria com o Pedro Ortale, mesmo 20 anos depois do primeiro disco, vocês voltam a fazer esta parceria.

A parceria com o Pedro começou há muitos anos, quando começamos a tocar juntos na noite. Quando gravei o primeiro CD não tive dúvidas de que ele seria o arranjador e diretor musical do trabalho. Já conhecia bem seu talento. Foi um disco com músicas de compositores sul-mato-grossenses. Nesse meio tempo casamos, tivemos um filho, João Pedro, que toca no novo disco, e nos separamos. Mas na música a parceria continuou. O Pedro é um grande músico e arranjador.

 

 “Sonhos Guaranis” é uma guarânia dos anos 1980 e o rasqueado “A Matogrossense” dos anos 1960. São músicas que identificam o “ser matogrossense” e tocam nesta questão da identidade cultural do Estado de MS. Para você, que transita nas suas raízes na matriz nordestina e fronteiriça, como identifica esta questão da identidade do Mato Grosso do Sul, que completa 40 anos em outubro de 2017? A sua geração foi de pessoas que nasceram em outros estados, vieram morar neste lugar e tiveram filhos em MS.

Sempre considerei a música “Sonhos Guaranis”, do Paulo Simões e Almir Sater, dois grandes artistas do MS, um hino não oficial do Estado. A poesia do Paulinho conta com maestria como se formou a identidade cultural do hoje Mato Grosso do Sul, “onde o Brasil foi Paraguai”. A suavidade da melodia do Almir completa de forma magistral a canção. Quando o Pedro propôs esse arranjo achei que ela teria o tom solene que merece ter, quase como uma reverência a canção e seus autores. Eu nasci no Rio de Janeiro e fui muito criança, com menos de três anos, para o Ceará. Lá cresci e criei fortes raízes com o Estado, onde vive toda a família do meu pai. Sinto como se tivesse nascido lá. Mas vim pro MS com 14 anos. Vivo há muito mais tempo em terras sul-mato-grossenses do que em qualquer outro lugar. No Mato Grosso do Sul comecei a cantar e me envolver profissionalmente com a música e com as questões ligadas às políticas públicas de cultura. Posso sair sozinha para algum evento sabendo que vou encontrar um monte de amigos e pessoas conhecidas. Tenho um sentimento de pertencimento a esse Estado, tanto quanto tenho com o Ceará. Sou cearense sul-mato-grossense. Ponto final.

                                                                                                                                                                                                                    

BATE BOLA



FICHA TÉCNICA

do CD


Engenheiro de Gravação e Edição
Marcos Mendes

Estúdio
Uaná Áudio


Direção Artística e Arranjos
Pedro Ortale


Produção Fonográfica
Maria Alice


Mixagem e Masterização
Claudio Abuchaim/Abuchaim Produções


Prensagem
MCK Music Records


Projeto Gráfico
Lula Ricardi/XYZ design


Fotografia Capa
Elis Regina Nogueira


Revisão de Textos
Marco Antonio Storani


Produção
Marruá Arte e Cultura


Direção de Produção
Belchior Cabral


Produção-Executiva
Andréa Freire


GRAVADO NOS MESES DE MAIO E JUNHO DE 2017, 
EM CAMPO GRANDE-MS

do SHOW


Voz 

Maria Alice


Violão Nylon 6

Pedro Ortale


Baixo

EdClei Calado


Acordeon

Renan Nonato


Percussões

Chico Simão e João Pedro Ortale


Convidados

Maria Cláudia (Voz) e Marcos Mendes (Violão Nylon 6 e Voz)


Direção e produção musical

Pedro Ortale


Técnico de som

Adriel Santos e Alex Cavalieri 



Cenografia e Figurino

Telumi Hellen


Arte da Projeção

Rafael Mareco |  Vinícius Gonçalves


Desenho de Luz

Elton da Silva


Fotografia

Elis Regina


Filmagem
Vaca Azul


Produção

Marruá Arte e Cultura


Coordenação

Belchior Cabral


Produção Executiva

Andréa Freire

RELEASE

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Fotos
Elis Regina
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